Merlot: The Reckoning

Há algum tempo que penso em fazer uma carta, uma mensagem para mim quando eu fosse velho. Não sei ao certo como ela seria entregue o fato é que eu deveria de uma certa forma expressar meus sentimentos transitórios para uma alma que já viu de tudo neste mundo, para alguém que pudesse olhar para mim mesmo com uma benevolência quase infinita, com uma compaixão e amor que pudessem fazer com que ele mesmo se sentisse alguém mais valoroso, alguém que já teve mtos sentimentos juvenis, tolos e ingênuos.

Esse alguém sou eu em ambos os casos, ambos os casos escrevendo e lendo, vivenciando algo individual e transcrito de maneira parcial, romântica e cheio de gestos, em sua maior parte apenas melodias sem ouvintes.

E agora Guto Velho, agora o que resta de mim? De ti? O que há de vc senão esse amontoado de pavores, de gestos como vc diz, de sentimentos instantâneos que voam de maneira tão rápida que vc mal tem tempo de pensar em algo para conectar. Não se trata de algo apenas em descontrução, um sentimento que se solidificará em outro posterior, trata-se mesmo daquela sensação familiar de ausência e perseverança infantil, a noção rudimentar de que é preciso viver, viver e viver.

Mas então Guto velho, meu bom homem que está aí sentado na varanda sua casa decorada e inspirada na casa de água do Lloyd Wright, em sua mansão de pesadelos. Sozinho sim, pois, uma pessoa como vc não casa, uma pessoa como vc se consome em meio aos seus anseios de arte, vanguarda e potência da vaidade, de sentimentalizar pobres jovens pueris. Vc nem é velho ainda e já quer ter ares de Andre Breton e do atualíssimo Polanski.

Ora, por que me olhas assim com esta reprovação? Eu ainda poderia até alimentar a alma com estas fantasias imorais, poderia me contentar em amar quantas meninas fossem possível já que sou jovem, 24 anos, mas e vc aí? 50? 60 anos? Não importa, a partir do 40 todos são velhos irrecuperáveis e vc está aí mesmo, não nesta casa bela me meio à natureza, mas sim se alimentando de soja, trovões e chuvas compartilhando um  edifício com outros igualmente idiotas jovens com anseios pederastas. Vc é a materialização do fracasso cheio de ódio e raiva acumulados e não sublimados; solidificados neste claustro biológico de calvíce, banha e rancor.

Ou talvez não, agora, nos meus 24 anos, posso te olhar da maneira como quiser e te ver não um velho estéril. Um velho convicto e feliz, contente com sua capacidade de ter acumulado riquezas suficientes para poder acordar de manhã e olhar um mundo aloprado se esticando para um outro amanhã e um outro amanhã enquanto vc come calmamente a mesma banana, a mesma aveia açúcar mascavo que vc sempre gostou. Mas fazer oq? Sou velho, sou ancião de antemão e eu quero fazer músicas que nunca serão gravadas, quero gritar e me esbravejar com meus amigos na certeza de seus perdões. Quero esse devaneio clichê de que Godard me permite a reflexão, a introspecção.

Vc é velho, decadente mas mesmo assim, é o Guto que sempre foi velho e neste ponto a permanência do pessimismo se mostra uma virtude. A virtude de sempre se adequar a um tempo caduco, monótono e barulhento.

~ por sussurrosdosubsolo em novembro 11, 2009.

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